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O
mundo real e a distância
do conhecimento econômico
Ivo M. Theis
Em fins de outubro deste
ano recebi uma mensagem da Society for the Advancement of Socio-economics
(Sase), rede que reúne pesquisadores da área socioeconômica de várias
universidades do mundo inteiro, e com a qual me relaciono desde 1994. Esta,
todavia, não era uma mensagem meramente informativa, como costumam ser as
habituais da Sase. Ela trazia uma petição (post-autistic economics) que está
circulando, com adesão surpreendente, entre estudantes de economia de
universidades francesas. Entre tradicionais professores de economia da França
que apóiam a iniciativa dos acadêmicos franceses de economia se incluem
Michel Aglietta e Robert Boyer.
Traduzo, sinteticamente, o conteúdo de tal petição: "Nós, estudantes de
economia, declaramo-nos insatisfeitos com o ensino que recebemos em virtude
de diversas razões. Primeiro, desejamos escapar de mundos imaginários: muitos
de nós escolhemos o estudo da economia para adquirir uma compreensão
aprofundada dos fenômenos econômicos com os quais os cidadãos de hoje são
confrontados; no entanto, o que nos é ensinado - e isso é basicamente teoria
neoclássica - não atende a nossas expectativas; como se sabe, essa teoria não
se reporta a fatos concretos (fatos históricos, funcionamento de
instituições, comportamento e estratégias reais dos agentes econômicos), que
sejam empiricamente verificáveis. O desprezo da teoria neoclássica
convencional pelas realidades concretas nos coloca o problema da inutilidade
de nosso aprendizado. Segundo, opusemo-nos ao uso descontrolado da matemática:
a matemática pode ter sido um instrumento importante para auxiliar os
economistas a explicarem fenômenos econômicos. Todavia, a matemática parece
ter se tornado um fim em si, afastando o conhecimento econômico do mundo
econômico real; a formalização matemática presente em muitas análises
econômicas tem permitido corroborar hipóteses formais de trabalhos rebuscados
e publicar bons papers; mas tem, sobretudo, distanciado o saber em economia
dos problemas econômicos verdadeiramente relevantes atualmente. Terceiro,
somos favoráveis ao pluralismo de abordagens na economia: tem havido pouco
espaço para a reflexão, em grande parte devido ao fato de que as questões
econômicas têm sido abordadas de apenas um ponto de vista - o do mainstream
neoclássico. Somos contra esse dogmatismo. Queremos um pluralismo de
abordagens, ajustado à complexidade de objetos e à incerteza das questões que
se referem ao campo da economia (desemprego, desigualdades, vantagens e
desvantagens do comércio livre, globalização, desenvolvimento econômico,
etc.). Quarto, chamado aos professores - acordem antes que seja muito tarde:
apelamos a todos quanto entendem nossas reclamações para que apóiem reformas
no ensino de economia rapidamente; o risco de que os atuais estudantes de
economia, do mundo inteiro, abandonem seus cursos é grande - e isso não
porque perderam seu interesse na área, mas porque não desejam mais ficar
prisioneiros de um conhecimento distanciado do mundo econômico real.
Esperamos que prevaleça o bom senso".
Muito bem: isso bem poderia ser mais um deliriozinho de marxistas
empedernidos, não é mesmo? Mas não é. Aliás, o tom da "petição" é
ingenuamente conciliador (we do not ask for the impossibile, but only that
good sense may prevail). Isso mostra que chegamos ao limite. Essa brincadeira
de enganar a patuléia com a mágica do mercado está ficando manjada. Por mais
ciência que a humanidade tenha produzido até esta "entrada num novo
milênio", os economistas e professores de economia ainda parecem querer
desafiar os fatos com suas teorias abstratas, seus modelos matematicamente
bem elaborados, seu discurso único. Bom senso, pois...
Ivo M.
Theis, professor
da Universidade Regional de Blumenau (Furb)
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